Startups em ambientes não digitais: conheça a Meucopo Eco

Startups em ambientes não digitais: conheça a Meucopo Eco

Você acha que startups são pequenas empresas de tecnologia? E se eu te disser que existem startups bem sucedidas que não tem nenhuma ligação com desenvolvimento de software? É sério.

Numa abordagem mais ampla, startups são empresas formadas por pequenos grupos de pessoas que buscam modelos de negócios repetíveis e escaláveis, e que trabalham em condições de incerteza. Esse tipo de empresa tem a inovação em seu DNA e busca solucionar problemas de forma criativa.

É exatamente o que faz a Meucopo Eco, uma startup de Florianópolis focada na realização de eventos ambientalmente sustentáveis por meio da venda e empréstimo de copos reutilizáveis. Há três anos no mercado, a empresa já evitou que 54 milhões de copos descartáveis fossem para o lixo e poluíssem o meio ambiente.

A ideia que deu origem à empresa surgiu na Europa há 15 anos e ganhou popularidade na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, quando eliminou totalmente o uso de copos descartáveis.

Conversei com a Larissa Kroeff, sócia fundadora dessa iniciativa pioneira no Brasil, para entender melhor como o conceito de startups se aplica em ambientes não digitais. O resultado do bate papo foi uma entrevista bem interessante e descontraída, que você lê agora.

Meu copo Eco no Social Good Brasil

Meu copo Eco no Social Good Brasil

Id: Como surgiu a Meucopo Eco?
Larissa: Eu comecei a trabalhar com eventos sustentáveis em 2007, quando fiz um estágio na França. Lá, eu descobri na sustentabilidade o que me faltava: poder ajudar a solucionar os problemas do mundo com o que eu sei fazer. A partir dessa experiência, eu e Joris, meu sócio, resolvemos, entre 2010 e 2011, trabalhar com negócios sustentáveis aqui no Brasil.

Logo que chegamos, a primeira coisa que ficou clara para nós é que o país está bastante atrasado. Percebemos que aqui não havia essa solução de copos reutilizáveis e o copo descartável é um dos grandes vilões para o meio ambiente — são 720 milhões de copos descartáveis produzidos por dia no Brasil.

A ideia inicial era começar com algo mais simples para reduzir esse problema. Então, resolvemos correr todos os riscos de abrir uma startup de sustentabilidade ambiental e trazer o conceito dos copos reutilizáveis para cá. Começamos a disponibilizar essa solução aqui no Brasil. Daí nasceu a Meucopo Eco.

A empresa começou com apenas dois sócios e hoje conta com o trabalho e dedicação de mais cinco pessoas aqui em Florianópolis e seis representantes em outros estados. Ao todo, somos 13. Para chegar nessa estrutura demoramos pouco mais de dois anos.

Id: Com que dificuldades vocês se depararam no início da empresa?
Larissa: Fizemos pesquisa para entender por que não havia essa solução no Brasil e que dificuldades teríamos para implementá-la. E foram várias! A primeira foi explicar para as pessoas o conceito da nossa empresa. A gente não produz copos apenas, a gente se propõe a resolver o problema do lixo nos eventos.

Por isso, tínhamos a ideia de comprar copos de alguém que os produzisse, como aconteceu com as empresas européias que eu conheci. Foi aí que veio o segundo problema: descobrimos que não havia copos de polipropileno no mercado brasileiro. Os poucos que existiam eram caríssimos.

O polipropileno é muito resistente e dura muitos anos. É o material ideal para o nosso modelo de negócio. Diante dessa inviabilidade, percebemos que teríamos de entrar em uma linha de produção, e isso era muito complexo. A partir dessa percepção, encomendamos um molde para fazer o copo exatamente como queríamos, seguindo alguns modelos europeus. Foi uma decisão estratégica.

Outra grande dificuldade, que ainda é recorrente, é quanto à mudança cultural. O atraso do Brasil comparado com as iniciativas da Europa é muito claro. Para que a França chegasse ao ponto de não imaginar festivais e eventos sem copos reutilizáveis teve todo um processo por trás que motivou as pessoas a fazerem isso.

Aqui, apesar de existirem alguns certificados e selos sustentáveis, não há divulgação em cima disso. Esse assunto não parece ser prioridade. Por isso, percebemos a dificuldade das pessoas de abrirem a cabeça mais rapidamente para entender os benefícios e usar as soluções.

Id: E as estratégias de negócio que usaram no início da empresa?

Joris e Larissa

Joris e Larissa

Larissa: O Joris fez uma boa pesquisa para entender o mercado. E eu já tinha um know how por ter trabalhado com eventos sustentáveis na França. A empresa que me fornecia os materiais hoje é líder do mercado europeu no segmento de copos reutilizáveis.

Com a junção desses conhecimentos, começamos a buscar informações, nos aprofundar no assunto para entender a logística que os europeus usavam e adaptá-la ao mercado brasileiro. Na época, a França estava uns três anos na nossa frente em termos de expansão da ideia e incentivo da prática.

O fato de ter trabalhado para essa empresa europeia nos ajudou a prever um pouco do que viria à frente, quais eram os próximos passos. E sempre que surgia uma dificuldade conhecida, pensávamos: “nós vamos chegar lá! Eles também passaram por isso”. No início, a gente se espelhava muito nisso. Essa experiência foi, sem dúvidas, uma base bem importante.

Quando chegamos a Floripa, comecei a frequentar a ACIF Jovem. Conheci muitas pessoas que também estavam empreendendo e criei uma rede de contatos muito legal. Foi a partir daí que comecei a entender o que estava acontecendo no mercado local e tive uma ideia do panorama nacional.

Estabelecer um relacionamento com a Universidade também foi um ponto muito importante, porque a gente acredita que o público jovem é quem gera tendências. Se conseguíssemos conquistar esse público, abriríamos muitas portas. Começamos com eventos pequenos e pontuais para que as pessoas conhecessem nossa solução e a Meucopo Eco se popularizasse nesse meio. Deu certo.

Id: Há três anos no mercado, como vocês avaliam a evolução da Meucopo Eco?
Larissa: A gente acredita que irá conseguir crescer na mesma direção da França, que é um grande caso de sucesso. Nos espelhamos no modelo da Europa porque vimos dar certo. Hoje eles têm uma indústria de lavagem de copos e é tudo automatizado. Lá, a estrutura para dar conta da demanda é muito grande.

A gente ainda está começando. Estamos nos adaptando para crescer. Nesse último ano, dobramos nossa estrutura de estoque e de higienização. Antes de tomarmos essas decisões de expansão, sempre analisamos a estrutura que temos e questionamos por quanto tempo ela ainda irá funcionar. Hoje sabemos que nossa estrutura vai funcionar para este ano e precisará ser reavaliada no próximo. A empresa já nasceu com essa organização.

Id: Como são os processos de vocês?
Larissa: A Meucopo é quase uma indústria de criação de processos [risos]. A gente procura melhorar sempre. E para isso criamos nossos processos baseados no que vimos dar certo.

Recentemente, decidimos fazer um inventário, de A a Z, documentando tudo o que cada um faz aqui dentro. Todos os setores detalharam suas atividades. Com isso, a gente descobriu os gargalos e começou a buscar formas mais fáceis e eficazes de fazer as coisas. Esse ritmo de buscar sempre o melhor e nunca estagnar é bastante forte aqui na Meucopo.

Outra coisa legal é que estamos conseguindo estruturar uma equipe muito engajada. Na verdade, quase todas as pessoas que trabalham com a gente escolheram estar aqui. Chegamos a receber cartas de amor de gente que queria trabalhar conosco.

Para algumas empresas, encontrar pessoal qualificado e engajado é uma das partes mais difíceis. A gente conseguiu unir pessoas que chegam até a gente pelo propósito do negócio. E quando temos uma equipe tão comprometida assim, delegar tarefas e passar responsabilidades é muito mais fácil.

Id: Que ferramentas vocês usam ou já usaram?
Larissa: Ter participado do Social Good Lab no ano passado abriu nossos olhos para muitas coisas. Começamos a conhecer mais todas as ferramentas de startups, de design thinking e outras metodologias de desenvolvimento do negócio.

Confesso que incorporar tudo isso na empresa ainda não é 100% fácil, mas já está muito mais claro. E isso ajuda a pensar fora da caixa. Hoje eu sei, por exemplo, que precisamos prototipar antes e que não precisamos fazer um plano de negócios super complexo.

Apesar de não usar o canvas [ferramenta de gerenciamento estratégico] toda hora, sempre penso pela lógica dele. Conhecer novas formas de pensar ajudou muito.

Id: Como você vê a Meucopo Eco daqui 5 anos?
Larissa: Daqui 5 anos eu espero que as pessoas tenham entendido que dá para fazer festa limpa, sem usar copo descartável e que busquem essa solução naturalmente. A Meucopo Eco estará lá para responder essa demanda, entregar esses copos e fazer essa mudança acontecer.

Id: O que você tem a dizer para quem está começando a empreender? Manda uma mensagem pra essa galera.
Larissa: Tem muita coisa para fazer no Brasil, principalmente nessa área social. Esse momento econômico de crise nos mostra que precisamos encontrar soluções para muitos problemas. Tem muita coisa errada acontecendo. E as oportunidades estão aí.

Eu acredito em empreender com propósito. O único jeito de mudar e ajudar nosso país é arregaçando as mangas para buscar as soluções. Quem quiser empreender, vai fundo! Sua ideia posta em prática pode ajudar muita gente.

Seja profissional no que você faz. Seja crítico, tente melhorar sempre e busque ajuda quando achar que precisa — tem um monte de ferramentas disponíveis. Seja paciente e fique feliz de ver que você é a mudança, porque essa é a maior recompensa.

É claro que você não tem que viver de amor, porque para ser sustentável tem que ser economicamente viável também.

Imagem de capa: Ramon Giron

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  • Renato Frota

    Muito interessante! Realmente, no SEGMENTO da sustentabilidade tem muita coisa a ser feita ou aperfeiçoada. Agora eu só preciso saber se a entrevista foi oral ou escrita (pra saber quem escreveu errado o “seguimento” que me dá arrepios!).

    • http://id.etc.br/ Id

      Mea culpa.
      Obrigado Renato. Corrigido.
      Acabei usando o parônimo se segmento sem querer. :)

  • Leandro Campos

    Tenho um copo amarelo da Meucopo Eco Conexões BH 2014 (Cidade da Música Cidade do Mundo – Parque das Mangabeiras). Fantástico. Parabéns, excelente proposta.

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